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Mostrando postagens de 2008

We are such stuff as dreams are made on.

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Somos da mesma substância que os sonhos, diz Shakespeare n'A Tempestade. Na peça, ele se pergunta o que é o homem, qual a diferença entre realidade e ilusão; deixa-nos com todas essas indagações, contudo saímos do teatro com algum conforto, seja inebriados com a certeza de que podemos ser tudo aquilo que nossos sonhos nos permitirem, ou mesmo aliviados pelo fato de nem Shakespeare saber respondê-las. Seja como for, a experiência de assistir a Shakespeare com cenário moderno e personagens imaginários choca, num primeiro momento, que pode ter-me levado a criticar a escolha do diretor, que, no entanto, revelou-se acertada depois de uma noite no mundo etéreo, mesmo que tenhamos a impressão que os atores se perdem durante a transição "ao vivo" entre personagens... realidade ou ilusão, perdem-se realmente ou não? Será que o fato de sermos da mesma substância que os sonhos nos torna etéreos? Acredito que sim ao passo que somos potencialidade, e temos planos de vir a ser. Como li...

Império dos sonhos

Assisti ao Império dos Sonhos (Inland Empire) do Lynch: basicamente uma releitura do Cidade dos Sonhos (Mulholland Dr.), mas muito menos inteligível. Novamente ele fala do filme dentro do filme, dos sonhos que povoam nossas vidas e de como vivemos imersos no universo caótico de nossos pensamentos. Diversas são as vozes que, por vezes, acabam nos enlouquecendo. Como no filme, o diálogo com o psiquiatra silencioso tem serventia. Em vista disso, não escrevo faz um bom tempo, desde que comecei a recorrer ao diálogo interno para entender como sonhos e fantasias marcam presença no mundo real. Papo de louco, diriam. E de certo modo é... - Então, Dra., o que me diz do meu sonho? - Como? - Do sonho, que eu acabei de contar... - Mas foi um sonho? Você não assistiu mesmo ao filme? - Sim, assisti. - Então por que está me perguntando de sonho? Não entendi... - Como assim, não entendeu? Acabei de te contar meu sonho. - Mas você não disse que era real? - E sonhos não são reais? Você mesmo diz que Fre...

A insustentável leveza de ser Atlas

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A mitologia grega nos informa que Atlas foi um titã incumbido de sustentar o mundo. A lenda diz que Hércules tinha de apanhar algumas maçãs de ouro no jardim das Hespérides, mas sabia que Atlas era o único capaz de fazê-lo, então propôs a ele que fizesse o trabalho enquanto sustentava o firmamento. Atlas retorna e, tentando enganar Hércules, diz que ele mesmo iria entregar as maçãs. Hércules era bem espertinho e, para não cair nessa, diz que precisava de sua ajuda para ajeitar o céu em suas costas. Atlas sustenta os céus por um instante, mas Hércules vai embora com as maçãs, deixando-o no eterno suplício. Pensando em termos atuais, não estamos tão longe de ser Atlas em nosso cotidiano... carregamos o mundo nas costas, metaforicamente, quando não temos mais tempo para as coisas prazerosas da vida, como dormir, comer uma refeição em paz, contemplar o céu, as árvores, sentir o solzinho batendo no rosto num dia frio, ou mesmo quando temos a impressão de que nossos dias estão cada vez mai...

Tempus edax rerum...

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Ovídio, nas Metamorfoses , disse que tempus edax rerum est . O tempo é o devorador das coisas. Mas o que dizer de uma fotografia? Há algumas semanas visitei o Museu da Língua Portuguesa e assisti novamente ao show no terceiro andar. Para quem ainda não conhece, trata-se de uma apresentação de poemas musicados com a projeção de imagens nas paredes e teto da instalação. Um poema que sempre me chama a atenção é um diálogo de Emília com o Visconde, cujo final, em especial, me fascina: "...a vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. / A gente nasce, isto é, começa a piscar. / Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. / Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. / É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. / A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. / Um rosário de piscadas. / Cada pisco é um dia. / pisca e mama; / pisca e anda; / pisca e brinca; / pisca e estuda; / pisca e ama; / pisca e cria filhos; / pisca e geme os reumatismos; / por fi...

Qual o valor de um sorriso?

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Às aves que migram...

Quando criança, me indagava acerca das coisas do mundo, perguntas ingênuas, mas que mostravam a avidez por conhecer, saber, entender. Perguntas provavelmente comuns a todas as crianças: "será que na minha vida toda ganharei/gastarei R$ 1 milhão?", "por que o céu é azul?", "pra que estudar português?", etc. À época, pensava que os adultos, sim, é que eram felizes, imaginava que eles nunca se indagavam sobre essas coisas, ou coisa qualquer, pois deviam tudo saber. Curiosamente, eu tinha fixação pela idade de 25 anos. Não sei explicar (eis uma pergunta que nunca me fiz, tampouco!). Imaginava essa ser a idade perfeita, para alguma coisa que não sabia. Poderia dizer aqui que algo fantástico aconteceu, alguma epifania, uma revelação depois de março de 2007, quando fiz 25 anos - sinto desapontá-los -, mas nada disso aconteceu... Acredito que somos uma pessoa diferente a cada dia, mas no fundo ainda sou aquela criança perguntadora, lá de fins da década de 80. Vasc...

Quem sou?

O texto da Dulce ( Condutas de risco ) me fez pensar um pouco sobre a questão dos simulacros e das simulações, como apresentada por Jean Baudrillard. Os simulacros visam enganar, fazer com que o falso se passe por verdadeiro. As simulações, contudo, não têm o intuito de ser representações falsas nem verdadeiras, mas apenas reproduzir o real. Focando não necessariamente no texto dela, mas da idéia que pode ser extraída dele, talvez seja possível entender a atuação de Clayton como um jogo de simulações e de simulacros. Sua atuação profissional usa dos simulacros para atingir um fim: ganhar casos judiciais, ludibriar, etc. Quanto aos simulacros, sabemos ser possível tomar o falso pelo verdadeiro e vice-versa; no entanto, a simulação, por não pretender-se nem verdadeira nem falsa, nos deixa num estado constante de incerteza. Partindo dessa idéia, podemos ver a pergunta "então, quem é você?" como a incerteza sobre a própria existência do protagonista. Afinal, ele é um indivíduo co...

E vale a pena?

Portuguese Sea - by Fernando Pessoa Oh salt-laden sea, how much of your salt are tears of Portugal! So that we crossed you, how many mothers wept, how many children vainly prayed! How many brides still to marry so that you would be ours, oh sea! Was it worth it? Everything is worth it when the soul is not skimpy. Who wants to go beyond the Bojador must surpass the pain. God the sea perils and the abyss gave, but in it He reflected the Heavens. (Tradução minha) Mar português Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.

Quanto vale uma imagem?

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(Foto minha, jan/2008 - Paranapiacaba, SP)

My Blueberry Nights - Beijo Roubado

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Vi o filme. Acho que o que agrada nele é a fácil identificação com situações que já vivemos, principalmente a questão dos relacionamentos findos, e o medo de assumir novos, ou então investir na imagem da pessoa amada perdida, e sofrer, acreditando que isso nos torna mais nobres, de algum modo. Certo está Jeremy (Jude Law) - podemos dizer -, que guarda a sete chaves as histórias e angústias, que é capaz de deixar seu grande amor ir e permanecer no mesmo lugar, esperando... até o momento em que decide roubar um beijo, que sequer é sabido pela beijada - qual o sentido disso? Acho que se eu me atrever um pouco, posso extrapolar a idéia e dizer que é um filme dentro de um filme. As fitas que Jeremy grava, e depois assiste como se fossem ficção, para mim, indicam a postura que ele toma, e que todos no filme, de certo modo, tomam. Ninguém participa de nada, a vida acontece, e só. Elizabeth (Norah Jones) assiste seu ex-amado com outra, pela janela do quarto, e assiste, sem se envolver, as pes...

Mentiras que a gente compra

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Calma, não se trata de nenhuma verdade à la Michael Moore. Mas bem que poderia. O site alemão Pundo (confira as outras fotos no site ) traz uma série de fotos de produtos, como os que diariamente compramos aqui no Brasil, cuja embalagem promete o manjar dos deuses, mas na hora C (sim, não errei não, é hora C mesmo, de Comer!) nos deparamos com algo medonho. Fica a lição para aqueles que acham que Photoshop é usado somente em revista de mulher nua e afins (lembram-se do caso do umbigo apagado da barriga da modelo? Confira aqui ).

O que O Estrangeiro tem a ver com Arquitetura?

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Finalmente, após meses, consegui terminar a leitura d' O Estrangeiro , do Camus. Esperava mais do livro. Não que seja ruim, pelo contrário, a idéia toda é ótima, mas a narrativa, seca demais, acaba minando aquela vontade de virar a página, para ver o que acontece em seguida. O livro fala, em linhas gerais, do estranhamento, de sentir-se um estrangeiro no mundo, ... enfim, não encontrei inspiração para continuar este texto, então, vou falar de outro livro, muito interessante, que li no fim do ano passado: A Arquitetura da Felicidade, do filósofo suíço Alain de Botton. Nele, Botton discorre sobre a influência da arquitetura em nossas vidas, bem como a noção do que é um edifício bonito. Afirma que a beleza das construções e dos objetos ao nosso redor possui a incrível habilidade de influenciar se somos felizes ou infelizes, e que a noção de beleza depende do que nos falta ou daquilo a que almejamos. Faz sentido. Para ele, a periferia de Paris é um exemplo de arquitetura impedindo que ...

Distribuição de renda

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Deu na Folha da S. Paulo (on-line) de 15/5: no Brasil os 10% mais ricos da população concentram 75% da riqueza . Não é de se espantar, afinal, seguimos nossa trajetória histórica de desigualdade na distribuição de renda. O estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), no qual a reportagem da Folha de baseia, ainda indica que a cidade de São Paulo desponta como a mais desigual, seguida de Salvador e Rio de Janeiro. Há quem diga que parte da culpa se deve à injustiça tributária, em que os ricos pagam pouco imposto quando comparados aos pobres. O coeficiente de Gini , que mede a desigualdade na distribuição de renda/riqueza, aponta o Brasil como um dos mais desiguais historicamente, na frente de países como Suazilândia, Zimbábue, Moçambique, Ruanda (vale lembrar que o coeficiente não leva em conta o tamanho do país) - os países escandinavos e o Japão figuram entre os com melhor distribuição (lembre-se do tamanho desses países). O mapa mostra o coeficiente Gini no mundo (o ama...

A prosopopéia do mercado

Foi-se o tempo em que somente na Literatura havia seres inanimados ou animais agindo como pessoas, expressando sentimentos humanos e fazendo coisas de gente. Se outrora eram os dias que podiam estar tristes, a rosa que acordava despenteada, a raposa que dava lição sobre o valor da amizade - exemplos abundam -, nas últimas décadas são os Estados Unidos que dizem preferir resolver a questão com o Irã diplomaticamente, o navegador da internet que adora travar, a Bovespa que está confiante, ou o mercado que exige que as modelos sejam magras. Este último, em especial, parece ter se tornando um ser vivo, pensante, que tem a primazia das nossas vidas. É curioso que uma "coisa" criada por nós mesmos acabe ditando nosso comportamento. Nada mais perverso, acredito. Ouvimos diariamente que o mercado exige profissionais altamente qualificados, que o mercado é implacável, que as modelos que o mercado quer devem ser magras... Ora, partindo da noção de que o mercado não existe como um ser a...

O que acreditamos

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Navegando na Internet, encontrei este quadrinho interessante sobre o processo de criação de significado. Acredito que nossa interação com o mundo, em boa parte, se dê por meio da linguagem, mais especificamente pela função nomeadora com a qual nos equipa. Nomeando damos vida às "coisas" que, de outro modo, permaneceriam no limbo dos nossos pensamentos. Dulce, uma grande amiga e escritora-em-formação - exímia tradutora, vale ressaltar -, vive às voltas com problemas tradutórios (cf. O Inferno de Dulce ), além de já ter expressado a dificuldade de se botar no papel o pensamento mais simples, às vezes. Como mostrado no quadrinho, o enunciador 1 tem uma imagem completa do cachorro, e o enunciador 2 precisa que este lhe dê mais dados para compreendê-la. No entanto, o que se desenvolve é que o enunciador 1, apesar de ter sempre o mesmo cão em mente, atribui valores diversos cada vez que vai falar dele. A imagem mental que o enunciador 2 tem, por sua vez, muda a cada nova informaçã...