sábado, fevereiro 19

País não pode prescindir de professores, ilegais ou não

São Paulo, sábado, 19 de fevereiro de 2011



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ANÁLISE EDUCAÇÃO

País não pode prescindir de professores, ilegais ou não

Excluí-los do sistema resultaria em milhões de alunos sem aulas


É BOM RECICLAR PROFESSORES, MAS É POUCO PROVÁVEL QUE UM CURSO, PRESENCIAL OU NÃO, TRANSFORME UM MESTRE SOFRÍVEL NUM GÊNIO DA DIDÁTICA


HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA

Ilegais ou não, os professores sem titulação formam um contingente de 208 mil educadores dos quais o país não pode, por razões práticas, prescindir. Excluí-los do sistema resultaria em milhões de alunos sem aulas, especialmente nas áreas mais remotas e desassistidas.
Goste-se ou não, são essas as pessoas que, nas condições de trabalho hoje oferecidas, estão dispostas a dar aulas e é com elas que as escolas vão ter de se virar.
Podem-se criar as oportunidades para que esses profissionais consigam seus diplomas, através de cursos à distância e outras facilidades. Isso já foi feito em algumas redes e é provavelmente o melhor modo de conciliar as necessidades do mundo real com as exigências da lei.
A questão é que o diploma, às vezes, não passa de um pedaço de papel. É sempre bom reciclar velhos professores, mas é pouco provável que um curso, presencial ou não, transforme um mestre sofrível num gênio da didática.
O motivo principal de o legislador ter introduzido a titulação como requisito para dar aulas não foi oferecer oportunidades de professores estudarem um pouco mais, mas sim promover ganhos de qualidade para o sistema. O pressuposto, apenas parcialmente correto, é o de que diplomas são um bom jeito de aferir essa qualidade.
O diagnóstico geral, ao menos, parece correto. O que os estudos internacionais mostram é que a qualidade do professor é determinante para a qualidade da educação ministrada.
Nessa seara, apesar das boas intenções de políticos, burocratas e da torcida do Corinthians, o Brasil faz feio.
Um estudo de 2008 da Fundação Lemann mostrou que apenas 5% dos melhores alunos (os que ficaram entre os 20% mais bem colocados no Enem) cogitam trabalhar como docentes da educação básica. A maioria dos "top 20" pensa em virar médico (31%) ou engenheiro (18%).
O contraste com os países campeões da educação não poderia ser maior. Na Coreia do Sul, para atuar no magistério é necessário estar entre os 5% mais bem avaliados no exame nacional de ingresso no ensino superior. Na Fin- lândia, os professores vêm dos 10% melhores alunos.
Inverter essa situação exige não só recursos vultosos -é preciso oferecer salários atrativos para 2,5 milhões de professores- como uma mudança cultural que devolva à categoria o prestígio social de que já gozou. Não vai acontecer do dia para a noite.

17% dos professores não têm formação ideal para dar aula

São Paulo, sábado, 19 de fevereiro de 2011
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17% dos professores não têm formação ideal para dar aula

Lei exige formação superior para docentes a partir do 6º ano do fundamental

MEC reconhece que a situação é ilegal e pode afetar aprendizado, mas diz articular políticas para sanar a questão

MARÍLIA ROCHA
NATALIA CANCIAN
DE SÃO PAULO

No Brasil, 16,8% dos professores da rede pública não têm formação suficiente para exercer a profissão e estão em situação irregular.
A LDB (Lei de Diretrizes e Bases) exige que os docentes do sexto ano do ensino fundamental ao terceiro ano do ensino médio tenham formação superior, mas 208 mil professores dessas séries concluíram apenas o fundamental ou o médio.
Por Estado, a pior situação é na Bahia, onde 50,8% dos 96,5 mil docentes dessas séries não completaram o ensino superior. Já São Paulo tem a melhor taxa nacional: 2,25% dos 238.667 professores dessa fase do ensino não terminaram a faculdade.
O levantamento, feito com base em dados do Inep (instituto ligado ao MEC) reunidos em 2009 e atualizados em janeiro deste ano, abarca o total de 1,2 milhão de professores que dão aulas nas séries em que há essa exigência.
O índice é praticamente o mesmo de 2007 (16%), quando se fez o primeiro levantamento nacional do tipo. Erivan Santos, 20, ilustra essa situação. Ele começou a dar aulas na rede pública aos 19 anos e atualmente ensina geografia numa escola particular de Acajutiba, na Bahia, enquanto está no segundo ano de pedagogia.
"Para dar aula de geografia, basta ter um bom entendimento do assunto e saber passar isso para os alunos. Não precisa de conhecimento aprofundado, não", diz.
"Esses professores estão em situação irregular e terão de fazer uma licenciatura", afirma a pesquisadora Ângela Soligo, da Faculdade de Educação da Unicamp.
O fundador da ONG Todos Pela Educação, Mozart Neves Ramos, diz que o percentual de docentes sem faculdade também descumpre metas do Plano de Educação Básica. "Parte desses professores vem de cidades menores, onde, em geral, só se estuda até o ensino médio", afirma.

OUTRO LADO
A secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar Almeida e Silva, admite que a situação dos professores sem formação suficiente "fere a lei" e pode comprometer a aprendizagem.
Segundo ela, estão em curso políticas articuladas com governos locais para sanar a questão. "Nunca temos resultados rápidos em educação, mas as políticas atuais estão bem estruturadas."
A diretora do Instituto Anísio Teixeira (que forma docentes na BA), Irene Cazorla, diz desconfiar que os dados estejam "superestimados".

Colaborou MATHEUS MAGENTA, de Salvador

segunda-feira, fevereiro 7

Cansados de carro, paulistanos optam por pegar ônibus

Saiu na Folha de S. Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0602201123.htm

Usuários concordam que serviço ainda está longe do ideal; principal reclamação é a demora no embarque

Deixar de ficar parado no trânsito da cidade é o principal motivo que leva ex-motoristas a preferirem o ônibus

TETÉ MARTINHO
DE SÃO PAULO

Malu Moraes mora nos Jardins. Em abril, vai comemorar o 60º aniversário em Milão. Para manter seu padrão de vida, cortou hábitos que considera desnecessários: restaurantes caros, roupas da estação -e carro.
"Quando me perguntam por que não engordo, digo: não tenho carro." Economia, autonomia para mudar de estratégia em congestionamentos, vontade de fazer dos deslocamentos algo menos penoso e improdutivo têm levado mais paulistanos a recorrer ao ônibus.
Quem está aderindo agora ao ônibus deu sorte. As melhoras dos últimos anos incluem carros maiores e mais novos, o bilhete único, GPSs que ajudam a verificar denúncias de má condução e um serviço de reclamações.
A principal queixa dos paulistanos, no entanto, continua sendo a demora para embarcar, responsável por quase 30% das reclamações. A experiência mais bizarra do arquiteto Paulo de Camargo, 30, envolvendo ônibus foi a bronca que levou de um ex-chefe por ter ido de coletivo visitar uma obra do escritório fino onde trabalhava. "Ele me disse que andar de ônibus é coisa de pobre. E se o cliente descobre?"
"Para mim, estranho é um arquiteto, um urbanista ou um sociólogo que nunca andou de ônibus, não conhecer a cidade dessa perspectiva", diz o empresário Ricardo Heder, 48. O hábito do ônibus pesou até na escolha da casa onde mora.
Um carro basta para ele e a mulher, a artista plástica Renata Ursaia, 37. "Acho carro chato, mas não vou dizer que ônibus é maravilhoso."
O estilista Carlos Christofani, 49, só anda de táxi, metrô, ônibus ou a pé. Ele fez uma conta e concluiu que, mesmo se andasse só de táxi, gastaria menos do que para manter um carro. Um paulistano que mora na região da Pompeia (zona oeste) e trabalha na Berrini (zona sul) teria, por exemplo, uma economia de 63% nas despesas mensais caso trocasse o carro pelo ônibus.
O transporte coletivo parece, para Carlos, "caminho sem volta" para uma cidade com quase 7 milhões de veículos. "Tenho crédito pré-aprovado de R$ 110 mil para comprar carro numa conta que se tiver R$ 100 de saldo é muito", afirma.
Todos os dias, Matthew Shirts, 52, editor da revista "National Geographic", vai e volta de ônibus do trabalho. "O ônibus é o primo pobre do transporte urbano. São poucos e lotados, não têm amortecedor, não têm câmbio automático. É como diz Jaime Lerner: "O problema é que ninguém importante anda de ônibus'", diz o jornalista americano. Sem falar na tarifa, R$ 3, a mais cara do país. "O governo brasileiro devia premiar quem usa ônibus, assim como na Alemanha as pessoas ganham dinheiro para ter filhos."

segunda-feira, março 15

Os restaurantes

Engraçado como eu raramente - ou nunca? - escrevi sobre culinária, que é uma das minhas grandes paixões. Eu adoro comer, principalmente experimentar novos pratos dos lugares menos prováveis. Provar um novo prato é uma viagem - talvez a mais recompensadora - que alguém pode fazer sem sair de sua cidade. Eu já tive minhas aventuras gastronômicas aqui em São Paulo e também em algumas viagens. Além disso, me aventuro de tempos em tempos na cozinha, e os amigos fazem as vezes de cobaias :)
Como era esperado, fui a alguns estabelecimentos participantes da Restaurant Week 2010, em São Paulo (de 1º a 14 de março), ou pelo simples prazer da descoberta, ou por indicação de alguém.

Restaurante 1

Convidei alguns amigos para um jantar dias antes de meu aniversário no pequenino Casinha de Monet Bistrô (www.casinhademonet.com.br), em Pinheiros. Estive lá ano passado e a casa me agradou - o sabor me lembrou bastante de algum bistrô de Paris -, então resolvi reunir-me com amigos para experimentar o menu do RW 2010.
A entrada escolhida foi echalotte lysé (cebola recheada com copa de lombo gratinada com parmesão) acompanhada de salada de folhas verdes. Estava tão boa quanto da primeira vez que a experimentei lá, apenas ligeiramente mais seca - mesmo assim, deliciosa. A cebola adquire um sabor suave e adocicado, que contrasta perfeitamente com o salgado do lombo). Os convivas aprovaram também.
O prazo principal, cuisse de canard aux sauce de fruits rouges épicés (nome pomposo para coxa de pato confitada com molho de frutas vermelhas), acompanhado de batatas assadas e recheadas de cogumelos e nozes, estava à perfeição. Eu sou conhecido por AMAR frutas vermelhas, e quando elas são combinadas para criar uma explosão de sabores, melhor ainda. Acertaram nas batatinhas recheadas com cogumelos e nozes - crocância e maciez é um casamento feliz!
A pomme au four à la cannelle sirop (maçã assada em calda de canela) estava boa, tamanho bom, e no ponto de cozimento correto. Gosto de comida aconchegante, e esta sobremesa me satisfez.
A apresentação estava nota 10!
A bebida escolhida foi uma caipirinha de saquê de... frutas vermelhas! OK, eu estava num bistrô, mas não resisti à caipirinha, parecia deliciosa, e estava :)
Nota: 9,0

Restaurante 2

Na noite de meu aniversário, me reuni com outros amigos num bistrozinho bem despretensioso, o Otto Bistrô (
www.ottobistrot.com.br), escolhido por sugestão de um conhecido blog de culinária que elogiava o menu oferecido durante a RW 2010.
Minha entrada foi
o wrap de folhas e xerém acompanhado de mix de folhas. Estava bom, nada mais do que isso, nada inovador ou que encantasse o paladar.
O prato quente,
alcatra com pimenta biquinho acompanhada de cebola julienne (em tirinhas finas) cozida e batata assada, foi uma boa decepção, estava sem tempero nem sal; ao menos a pimenta era bem aromática e, depois de colocar mais sal, deu uma enganada no paladar; a cebola estava em excesso - deixei praticamente toda - e a batata se limitou a duas ou três fatiazinhas...
Além da apresentação tenebrosa - apena uma taça sem nada -, a
Surpresa do Otto foi o que o nome prometeu, uma surpresa... mas desagradável. Trata-se de uma ganache (creme) de chocolate com geléia de maçã da casa e castanha de caju. A atendente foi simpática e ofereceu opções de troca do sabor da geléia - cedi, e escolhi a de carambola: piorei o que já não era bom! A ganache, que deveria ser cremosa, estava quase líquida e à temperatura ambiente, e a geléia estava insuportavelmente doce. Deixei 2/3...
Pedi uma caipirinha de saquê de tangerina (OK, adoro caipirinha de saquê!), estava boa.
A casa é charmosa, mas não tem ar condicionado nem ventiladores, então os convivas ficaram na dúvida se usavam o cardápio para se abanar ou escolhiam o que iam comer.
Nota: 6,0

***** *****
Meus amigos sabem que eu adoro fazer experimentos na cozinha, e fui presenteado com 3 livros interessantíssimos de culinária. Logo mais escrevo sobre alguma receita interessante de lá :)

segunda-feira, novembro 9

500 dias com ela


Este fim de semana assisti ao filme 500 dias com ela [(500) days of Summer]. Inteligente, com ritmo legal, adorável. Trata-se de uma história de garoto-conhece-garota, o garoto fica apaixonado, e a garota nem tanto. O garoto sofre, a garota segue em frente.

Talvez a inovação do filme resida exatamente em apresentar a história de modo não-linear; os saltos temporais mostram os diversos estágios do relacionamento dos protagonistas, como acontece na vida real. Ao lembrarmos de um ex-relacionamento, ou de acontecimentos passados, é comum embaralhamos a ordem das coisas. Além disso, algo que me chamou muito a atenção foi o nome das garotas: Summer e Autumn.

Teria sido o relacionamento com Summer (verão, em inglês) bastante intenso, com temperaturas elevadas, com os dias longos, assim como a estação do ano? No final da história, chega Autumn (outono, em inglês), que talvez represente não só um novo relacionamento potencial, mas a mudança de comportamento frente aos relacionamentos. O filme termina neste ponto, então, só nos resta especular se o relacionamento que viria a se desenvolver com Autumn também estaria relacionado às qualidades da estação do ano... o outono é comumente associado, em literatura, à melancolia, ao passo que o verão é dinâmico. Não sabemos.


No fim das contas, o filme retrata bem como são os relacionamentos modernos, sem fazer julgamentos de quem está certo ou errado, sem preestabelecer quem fere e quem é ferido; afinal, para que aconteça, ambos os envolvidos concordam e aceitam os riscos de se envolverem e se entregarem, então não faz sentido pensar em Summer como a vilã que machuca Tom, como muitos de nós, às vezes, somos tentados a pensar. Relacionamentos são feitos de responsabilidade pelo outro, como disse a raposa ao Pequeno Príncipe, sim, mas só até o ponto em que também temos de ser responsáveis pelos nossos próprios sentimentos.

Foto: Parc de la Villette, Paris, nov. 2009, (c) Thiago H. Nascimento

sexta-feira, setembro 4

Wanderlust


Apesar de ser cético em relação a assuntos de destino, recentemente tenho sido surpreendido por acontecimentos que parecem ir ao encontro das minhas expectativas. Um exemplo: esta semana, no trabalho, traduzindo um manual técnico me deparei com uma palavra - da qual nem me recordo agora - desconhecida; pesquisando-a no dicionário, por alguma razão me apareceu outra palavra, a que dá título a este texto - Wanderlust, um termo alemão que pode ser entendido como, em linhas gerais, o desejo de viajar, a simples necessidade de ir a qualquer lugar, em busca do desconhecido. Mas não apenas isso, a sensação vai além, é também física, as pernas têm necessidade de caminhar, em direção a algo novo, que é, no final, o objeto do desejo.
Talvez isso tenha se intensificado pelo fato de minhas férias estarem pertinho; menos de 27 dias...
Na linha do wanderlust, alguns filmes despertam o desejo mais puro de ir (e isso nada tem a ver com o comercial do cartão Visa): Vicky Cristina Barcelona; Encontros e desencontros; Amélie...
Sem dúvida alguma, para mim, um filme que provoca a vontade de vivenciar um lugar é Paris, je t'aime. Há uma cena, em que Carol, uma funcionária dos correios americanos, passeando na cidade sozinha, senta-se em um banco num parque e diz:

"Sentada lá, sozinha, num país estrangeiro, longe do meu trabalho e de tudo que eu conhecia, uma sensação tomou conta de mim. Era como se lembrar de algo que eu nunca soubera ou algo por que sempre esperei, mas não sabia o que. Talvez fosse algo que eu esquecera ou que deixara escapar por toda a minha vida. Só o que posso dizer é que me senti, ao mesmo tempo, triste e feliz. Mas não muito triste, porque me sentia viva. Sim, viva. Foi naquele momento em que eu me apaixonei por Paris, e percebi que Paris tinha se apaixonado por mim."


Acredito que todos podemos vivenciar lugares e pessoas, e isso faz bem, muito mais do que ser apenas passadores de tempo, transeuntes das ruas e das vidas das pessoas. Wanderlust nos impulsiona a ir, mas os laços nos trazem de volta. Os portugueses viajaram o mundo nas Grandes Navegações, e até mesmo cunharam a saudade para lembrá-los de que suas casas os esperavam.

O que te impulsiona e o que te chama de volta?

domingo, julho 12

A hora do verão

O cinema francês sempre instiga a reflexão, parece recusar-se a entregar a trama pronta, a esmiuçar a narrativa. Os espectadores devem, então, se esforçar para dar significado ao que lhes é mostrado e encontrar dentro de si o que está oculto. Para mim, ver um filme francês sempre é a descoberta dos desejos que eu cismo em esquecer que existem. O filme L'Heure d'Été (Horas de Verão) é um drama que mostra o processo de partilha da herança e das memórias do pintor Paul Berthier, deixadas pela mãe de três filhos, cada um com suas trajetórias de vida, e de como cada um deles atribui valor sentimental e econômico aos bens partilhados. O filme vai além, mostra que, não obstante esses bens terem valor artístico-econômico, fazem parte da história de vida e são parte dos três filhos. Apesar disso, cada um deles dá valor e importância diversos aos objetos e às memórias propriamente. No fim das contas, o que levamos são as lembranças e não o valor econômico dos bens que herdamos. Uma obra de arte só tem valor quando num contexto e nas mãos da entidade certa - assim como nossas memórias, bens são feitos de história e o valor dado a eles vai além do material com o qual são produzidos. Nossas memórias valem à medida em que as sentimos e vivenciamos.
Para mim, o título do filme - L'Heure d'Été, a hora do verão - já indica que o filme fala de um episódio transitório na vida dos protagonistas. O verão tem hora para começar e acabar, assim como a vida, assim como tudo. Então, a mensagem do filme é a efemeridade do material E das relações humanas; no final, levamos somente o que vivenciamos de fato, objetos serão sempre objetos, que quando são postos para fora do contexto original não têm significado, e a ninguém dizem respeito, exceto como curiosidades.
Alguns objetos do espólio acabam sendo vendidos ao Museu D'Orsay, onde turistas olham para uma escrivaninha, uma poltrona, para vasos que, despojados de seus contextos, são apenas objetos, perdem sua essência. O olhar do filho para os objetos expostos é melancólico, a saudade patente, e a certeza de que parte de sua história foi posta em cárcere é expelida de seus olhos de modo significante.
Do mesmo modo, escrever no blog faz todo o sentido para mim, num dado contexto; para quem lê, alheio à experiência que desencadeia a idéia, talvez pouco importe, talvez seja nada mais que um móvel incômodo sobre o qual nada se sabe e com o qual nada pode ser feito...