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Império dos sonhos

Assisti ao Império dos Sonhos (Inland Empire) do Lynch: basicamente uma releitura do Cidade dos Sonhos (Mulholland Dr.), mas muito menos inteligível. Novamente ele fala do filme dentro do filme, dos sonhos que povoam nossas vidas e de como vivemos imersos no universo caótico de nossos pensamentos. Diversas são as vozes que, por vezes, acabam nos enlouquecendo. Como no filme, o diálogo com o psiquiatra silencioso tem serventia. Em vista disso, não escrevo faz um bom tempo, desde que comecei a recorrer ao diálogo interno para entender como sonhos e fantasias marcam presença no mundo real. Papo de louco, diriam. E de certo modo é... - Então, Dra., o que me diz do meu sonho? - Como? - Do sonho, que eu acabei de contar... - Mas foi um sonho? Você não assistiu mesmo ao filme? - Sim, assisti. - Então por que está me perguntando de sonho? Não entendi... - Como assim, não entendeu? Acabei de te contar meu sonho. - Mas você não disse que era real? - E sonhos não são reais? Você mesmo diz que Fre...

A insustentável leveza de ser Atlas

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A mitologia grega nos informa que Atlas foi um titã incumbido de sustentar o mundo. A lenda diz que Hércules tinha de apanhar algumas maçãs de ouro no jardim das Hespérides, mas sabia que Atlas era o único capaz de fazê-lo, então propôs a ele que fizesse o trabalho enquanto sustentava o firmamento. Atlas retorna e, tentando enganar Hércules, diz que ele mesmo iria entregar as maçãs. Hércules era bem espertinho e, para não cair nessa, diz que precisava de sua ajuda para ajeitar o céu em suas costas. Atlas sustenta os céus por um instante, mas Hércules vai embora com as maçãs, deixando-o no eterno suplício. Pensando em termos atuais, não estamos tão longe de ser Atlas em nosso cotidiano... carregamos o mundo nas costas, metaforicamente, quando não temos mais tempo para as coisas prazerosas da vida, como dormir, comer uma refeição em paz, contemplar o céu, as árvores, sentir o solzinho batendo no rosto num dia frio, ou mesmo quando temos a impressão de que nossos dias estão cada vez mai...

Tempus edax rerum...

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Ovídio, nas Metamorfoses , disse que tempus edax rerum est . O tempo é o devorador das coisas. Mas o que dizer de uma fotografia? Há algumas semanas visitei o Museu da Língua Portuguesa e assisti novamente ao show no terceiro andar. Para quem ainda não conhece, trata-se de uma apresentação de poemas musicados com a projeção de imagens nas paredes e teto da instalação. Um poema que sempre me chama a atenção é um diálogo de Emília com o Visconde, cujo final, em especial, me fascina: "...a vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. / A gente nasce, isto é, começa a piscar. / Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. / Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. / É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais. / A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. / Um rosário de piscadas. / Cada pisco é um dia. / pisca e mama; / pisca e anda; / pisca e brinca; / pisca e estuda; / pisca e ama; / pisca e cria filhos; / pisca e geme os reumatismos; / por fi...

Qual o valor de um sorriso?

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Às aves que migram...

Quando criança, me indagava acerca das coisas do mundo, perguntas ingênuas, mas que mostravam a avidez por conhecer, saber, entender. Perguntas provavelmente comuns a todas as crianças: "será que na minha vida toda ganharei/gastarei R$ 1 milhão?", "por que o céu é azul?", "pra que estudar português?", etc. À época, pensava que os adultos, sim, é que eram felizes, imaginava que eles nunca se indagavam sobre essas coisas, ou coisa qualquer, pois deviam tudo saber. Curiosamente, eu tinha fixação pela idade de 25 anos. Não sei explicar (eis uma pergunta que nunca me fiz, tampouco!). Imaginava essa ser a idade perfeita, para alguma coisa que não sabia. Poderia dizer aqui que algo fantástico aconteceu, alguma epifania, uma revelação depois de março de 2007, quando fiz 25 anos - sinto desapontá-los -, mas nada disso aconteceu... Acredito que somos uma pessoa diferente a cada dia, mas no fundo ainda sou aquela criança perguntadora, lá de fins da década de 80. Vasc...

Quem sou?

O texto da Dulce ( Condutas de risco ) me fez pensar um pouco sobre a questão dos simulacros e das simulações, como apresentada por Jean Baudrillard. Os simulacros visam enganar, fazer com que o falso se passe por verdadeiro. As simulações, contudo, não têm o intuito de ser representações falsas nem verdadeiras, mas apenas reproduzir o real. Focando não necessariamente no texto dela, mas da idéia que pode ser extraída dele, talvez seja possível entender a atuação de Clayton como um jogo de simulações e de simulacros. Sua atuação profissional usa dos simulacros para atingir um fim: ganhar casos judiciais, ludibriar, etc. Quanto aos simulacros, sabemos ser possível tomar o falso pelo verdadeiro e vice-versa; no entanto, a simulação, por não pretender-se nem verdadeira nem falsa, nos deixa num estado constante de incerteza. Partindo dessa idéia, podemos ver a pergunta "então, quem é você?" como a incerteza sobre a própria existência do protagonista. Afinal, ele é um indivíduo co...

E vale a pena?

Portuguese Sea - by Fernando Pessoa Oh salt-laden sea, how much of your salt are tears of Portugal! So that we crossed you, how many mothers wept, how many children vainly prayed! How many brides still to marry so that you would be ours, oh sea! Was it worth it? Everything is worth it when the soul is not skimpy. Who wants to go beyond the Bojador must surpass the pain. God the sea perils and the abyss gave, but in it He reflected the Heavens. (Tradução minha) Mar português Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.